sábado, 28 de abril de 2012

CARTA AOS MEUS NETOS EM 25 DE ABRIL

Artigo de CATALINA PESTANA, no Jornal “SOL””
Filhotes, hoje vou contar-vos uma história, mas das verdadeiras, como vocês costumam pedir.
Como todas as histórias, tem muitos lados por onde pode ser vista e contada. Como o caleidoscópio de que o João gosta tanto.
A minha forma de a ver é marcada pelo facto de, apesar de tudo, o 25 de Abril de 1974 ser ainda hoje o dia mais importante da minha vida, depois do dia em que o vosso pai nasceu.
Estou a ver as vossas carinhas escandalizadas a perguntar: - Mais importante do que o dia em que nós nascemos, Vó? Sim e não. Passo a explicar:
A decisão do vosso nascimento não dependeu de mim, dependeu dos vossos pais. Mas o desejo de mudar um país tinha razões no meu coração desde o tempo em que eu tinha a idade do João, e, de uma forma mais esclarecida, a idade da Gi. Esse desejo era de muita gente, novos e velhos, trabalhadores da terra e das fábricas, professores e alunos.
Alguns foram presos, torturados e mesmo mortos por defenderem as ideias nas quais acreditavam.
A avó Bia, o avô Carlos e a tia Madalena, que estava grávida, também estiveram presos. Sabem porquê? Porque os maus, que nesta história eram os Pides, queriam que eles dissessem onde estava o avô Pestana. Por esse tempo ele pertencia a um grupo que os Pides queriam exterminar – que se chamava LUAR.
A avó Bia nunca se meteu em política, mas sabia que não se traem os amigos ou a família, mesmo que não percebamos o porquê das suas escolhas. Sabia sim, que o avô Pestana acreditava que estava a combater por aqueles que trabalhavam o dia inteiro e não tinham hospitais como nós temos agora, escolas,casas ou mesmo comida.
Agora estou a imaginar-vos a perguntar:- Vó, mas agora também há miúdos que não têm comida nem casa e até vivem em barracas. Então para que serviu o 25 de Abril? - Para muitas coisas que vos irei contando.
O 25 de Abril serviu sobretudo para podermos denunciar todas as situações que nos parecem injustas, e ajudarmos a resolvê-las se pudermos.
Serviu para eleger livremente quem nos governa, mesmo que mal.
Serviu para sermos uma democracia, com todos os limites que elas têm.
Daqui por cinco anos a Gi já pode votar, por isso vocês têm de ir aprendendo o que é isso de «democracia» e como se constrói uma cada vez melhor.
Neste dia 25 de Abril, enquanto ainda é feriado, os que desejaram muito o outro – de há 38 anos – estão muito preocupados. Os jornais publicaram um aviso de características muito graves:
«Tolerância zero nas manifestações do 25 de Abril»
Em 38 anos nunca precisámos da Polícia nas comemorações do Dia das Liberdade.
Ao que isto chegou! Estejam atentos aos próximo capítulos.

domingo, 22 de abril de 2012

O ESCRITOR

Crónica de Lobo Antunes na revista Visão de há umas semanas:


Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal- agradecidos, protestamos.
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade. O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles. Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito. Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver.
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia-miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca-vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar.
Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.
Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.


in Revista Visão
05.04.2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

SERIA UM NOVO ESTATUTO DO DEPUTADO

APROXIMAM-SE AS ELEIÇÕES AUTARQUICAS.

NENHUM DE NÓS DEVE VOTAR, SEM QUE SE CUMPRAM AS CONDIÇÕES ABAIXO ENUMERADAS.
Se cada destinatário deste texto o enviar por e-mail a um mínimo de vinte pessoas da sua lista de contatos, e por sua vez, cada um deles que fizer o mesmo, em três dias, a maioria das pessoas neste país lerá esta mensagem. Esta é uma idéia que realmente deve ser considerada e revista por todos os cidadãos. Proposta de alteração da Constituição de Portugal para o seguinte, o que é da mais elementar justiça:
1. Um deputado será pago apenas durante o seu mandato e não terá reforma proveniente exclusivamente do seu mandato.
2. O deputado contribuirá para a Segurança Social de maneira igual aos restantes cidadãos. Todos os deputados (Passado, Presente e Futuro) passarão para o actual sistema de Segurança Social, de imediato. O deputado irá participar nos benefícios do regime da S. Social exactamente como todos os outros cidadãos.
O fundo de pensões não pode ser usado para qualquer outra finalidade e não haverá privilégios exclusivos.
3. O deputado deve pagar seu plano de reforma, como todos os portugueses e da mesma maneira.
4. O deputado deixará de votar o seu próprio aumento salarial.
5. O deputado deixará o seu seguro de saúde actual e vai participar no mesmo sistema de saúde de todos os outros cidadãos portugueses.
6. O deputado tem de estar sujeito às mesmas leis que o resto dos portugueses
7. Servir no Parlamento é uma honra, não uma carreira.
8. Os deputados devem cumprir os seus mandatos (não mais de 2), e irem para casa procurar outro emprego, como toda a gente.
O tempo para esta alteração à Constituição é AGORA. Forcemos os nossos políticos a fazerem uma revisão constitucional. Assim é como se pode CORRIGIR ESTE ABUSO INSUPORTÁVEL DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA.
Se você concorda com o acima exposto, ENTÃO VÁ PARA A FRENTE. Se não, PODE DESCARTÁ-LO. MAS NÃO SE QUEIXE.

domingo, 15 de abril de 2012

NÃO HÁ MAIS TEMPO A PERDER

NÃO HÁ MAIS TEMPO A PERDER
Artigo de RUI COSTA PINTO, no Jornal “I”

“ Patrões e trabalhadores, banqueiros e grandes empresários, oposição e sindicalistas, demagogos e oportunistas, em uníssono, estão a avolumar o coro por mais subsídios para atenuar o desemprego galopante, o ritmo vertiginoso de encerramento de empresas e a escassez de crédito na economia.
Estes apelos são emocionalmente compreensíveis, mas incorrem numa racionalidade questionável. Num país sob a tutela dos credores internacionais não há apoios que erradiquem instantaneamente todos os vícios de uma economia corroída pela subsidiodependência.
Evitar a recriação de um clima de desperdício, ora para saciar as clientelas, ora para aconchegar os amigalhaços partidários, é mais importante que qualquer estímulo à economia.
Quem consome a informação dos «mainstream», que é a voz dos mais poderosos, e assiste ao debate público, por vezes liderado por quem ainda não teve a lucidez de se retirar de cena, até pode ser tentado a baralhar a realidade com a imagem que escorre untuosamente de alguns centros de poder.
Mas sejamos claros: a manutenção artificial de postos de trabalho custa dinheiro a todos os portugueses. Por isso é preciso que cada cêntimo de investimento público ou de ajuda ao sector privado seja ponderado e não prejudique a concorrência.
A confiança de Passos Coelho tem sido justificada pela percepção de que o regabofe com os dinheiros públicos já lá vai. Mas será que os principais constrangimentos que têm minado a economia real estão a ser atacados ao ritmo prometido?
Não. Mantém-se os anúncios opacos, a proliferação legislativa, a burocracia reinante, a hesitação em eliminar privilégios de alguns agentes económicos, o atraso nos pagamentos do Estado, a cultura da pedinchice e a incapacidade judicial de responder à normal actividade comercial.
Assim não admira que comecem a surgir os primeiros sinais de frustração em quem está a pagar os sacrifícios, pois tarda a consolidação de uma nova realidade económica, a partir de uma nova base caracterizada por mais transparência, concorrência e equidade fiscal.
Infelizmente, o maior partido da oposição continua embalado por guerrinhas internas e pela incapacidade de denunciar os estrangulamentos da economia. Ora sem uma oposição credível, capaz de exigir ao governo o cumprimento das promessas eleitorais, o risco de a mudança se quedar pelo equilíbrio contabilístico das finanças públicas é incomensurável.
Gritar aos sete ventos que o desemprego está muito elevado e exigir ao Estado que atire dinheiro para cima da economia sem cuidar de resolver o que está mal a montante, é manifestamente uma atitude sem qualquer utilidade.
A indignação generalizada com o nível da taxa de desemprego, entre outros indicadores desastrosos, só muito dificilmente será suficiente para apagar da memória os nomes dos responsáveis pela incúria que levou ao desastre.
Enquanto o PS não fizer o “mea culpa” relativamente ao passado do “país em festa”. O governo bem pode continuar a governar mais ou menos bem que não há uma alternativa credível.
Com o país afundado em dívidas, com as ajudas comunitárias à beira do fim e com a aprovação da regra de ouro, que limita o défice a 0,5% do PIB, seria de esperar que o governo não perdesse o fôlego em relação às grandes reformas e a oposição não fizesse promessas fantasiosas.
Não obstante todas as ameaças externas, só com medidas internas de fundo, que rompam com a lógica dos remendos a curto prazo, será possível reconquistas a soberania e a confiança num futuro melhor. “