Jornal do Barreiro/Visto Daquí – ANA PORFÍRIO
COISAS QUE UMA PESSOA ESCUTA E NÃO É
CAPAZ DE DEIXAR DE PENSAR NELAS
---“ Algures por estes dias, o Primeiro-Ministro referiu que “temos de empobrecer!”. Em primeiro lugar, acho uma ideia espantosa e faz-me lembrar um anúncio comercial, onde se pergunta o que achamos de dar só uma certa percentagem de roupa ou carinho aos nossos filhos.
A ideia peregrina de que podemos melhor empobrecendo, a mim, faz-me confusão. Pior do que isso choca-me. Mais ainda, não faz sentido. Podemos poupar, cortar em desperdícios, gastar de forma muito controlada e racional, mas empobrecer?
Confesso que não cresci naquela pobreza que ouço contar, mas ouvi contar muita coisa, as histórias das sardinhas para três e outras coisas que acho que ninguém quer nem para si, nem para os outros. Não ceito que alguém sde proponha a resolver os problemas empobrecendo o País, muito menos que faça disso um conceito de gestão.
Mais do que isso, certos aspectos deste “empobrecimento”, como o corte do subsídio de Férias e de Natal, são justificadas com o argumento, gasto, esfarrapado mesmo, que em muitos Países na União Europeia só existem 12 salários por ano. Pois sim, até pode ser verdade, mas em todos estes anos de adesão à União Europeia temos estado à espera de sermos iguais aos resto dos Europeus, porque a verdade é que o nosso salário mínimo, ou mesmo o médio, comparado com a maioria dos outros, é no mínimo, ridículo.
Mais ainda, temos tanta consciência disso que fala-se sempre, por exemplo, em captar turistas, ingleses ou alemães, a começar por reformados. A diferença é que o típico reformado português tem de dar muita volta à cabeça só para conjugar uma ida a Lisboa para uma consulta da especialidade, porque, para além de ter de tirar da reforma miserável o custo da consulta, ainda paga uns dinheiritos para apanhar barco e metro. A diferença é que em muitos Países da Europa ninguém está à espera do Subsídio de Natal ou de Férias para trocar os óculos ou ir ao dentista, nem existe essa ideia de ter de esperar dois meses por ano, com folgazinha, para comprar coisas que são essenciais.
Visto daqui, onde estou, esta ideia de que temos de empobrecer, além da estupidez por si só, cheira a um bafio salazarista, de má memória, de uma cultura pequenina que deixou este País sempre na cauda da Europa, num atraso de décadas que parece que se pretende continuar. ---“
NOTA:-
Minha querida Ana continuo a ler as tuas crónicas e a inseri-las no meu blog, com o maior interesse e prazer. Tudo quanto vens escrevendo no nosso Jornal do Barreiro, segue o circuito normal e posso garantir-te que em Johanesbourg, onde se encontram os meus primos, eles são lidos por muitos dos portugueses, que um dia saíram deste nosso Portugal em busca do El-Dourado que por cá nunca poderiam ter encontrado.
Bem hajas pela tua força!
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