terça-feira, 17 de maio de 2011

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ
de ANA PORFÍRIO
(Artigo publicado na Coluna OPINIÃO do JORNAL DO BARREIRO)

O dia de amanhã não vai ser fácil aliás vai ser duro, no dia de amanhã muitos serão os sonhos que ficarão congelados, as esperanças suspensas, por outro lado outras coisas nem por isso haverá coisas que continuarão, nem sequer ao seu ritmo mas um ritmo maior, poderá, claro, pensar-se, dizer-se, que é inevitável, que é nos sonhos que se terá de cortar, por acaso não acho, não acho que tenha de cortar nos meus sonhos, pequenos e simples, que se tenha de suspender o prazer de ver um filme, a magia sempre nova do teatro, de um concerto, a aventura de ler um livro, um dia de passeio ou uns dias de passeios em troca de mais impostos, juros mais altos, pelo privilégio de ter a energia mais cara da Europa, porque existem coisas que nos dizem ser intocáveis como os lucros da banca ou as directrizes europeias.
Aliás foram, entre outros, os lucros da banca que nos levaram até á posição ridícula de patrocinar desvarios privados de lucros chorudos, foi o dinheiro dos meus sonhos, o dinheiro que me é retirado todos os meses do salário, o dinheiro que é valor acrescentado em cada alface e cada par de peúgas que compro, que serviu para financiar o BPN, é esse meu capital de sonhos, do sonho de ter futuro para os meus filhos, neste país, onde por acaso nasci, e que aprendi a amar profundamente, tão profundamente que ainda me dói as oportunidades desperdiçadas, as traineiras abatidas, as fábricas fechadas, os braços caídos frustrados por ninguém os querer a menos que de modo quase escravo, as oliveiras, as vinhas arrancadas, a troco de normas que só servem outros interesses e de alguns tostões que para além de terem a capacidade de não produzir mais nada, ao contrário das oliveiras e das vinhas, diluíram-se em muitos bolsos impunes.
No dia de amanhã os meus sonhos estarão em suspenso, congelados, em nome de mais uma vaga de sacrifícios, que não será para todos, será para muitos no geral e para outros será particularmente fácil falar dela porque a tal vaga nunca os atinge. Este será o dia de amanhã.
Nada me impede de amanhã começar a lutar para que o dia depois de amanhã seja o dia dos meus sonhos. E a ti?

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