quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

OS REMEDIADOS

Artigo publicado por ANA PROFÍRIO no Jornal do Barreiro:

Noutros tempos, as crianças aprendiam a dizer na escola que não eram ricos nem pobres, eram remediados! É claro que os remediados, por vezes, usavam sandálias com peúgas em Novembro ou sapatos maiores que os seus pés, herdados dos irmãos mais velhos, com pedaços de cartão ou jornal por dentro, mão só para encher os sapatos, como para calafetar qualquer buraco na sola.
As peúgas eram remendadas até pouco restar da peúga original, tal como a roupa de uma maneira geral. Os remediados ficavam à frente nas fotos da escola, porque os pobres ficavam atrás, de forma a que não fossem fotografados os pés descalços.
Nas escolas havia respeito, crucifixos nas paredes, raparigas separadas de rapazes, palmatórias e ponteiros como método educativo, coadjuvado com as linhas férreas do ramal da Beira Baixa, os Reis de Portugal com os seus nomes e cognomes e a ideia de um Portugal enorme do Minho a Timor. Os remediados comiam sopa de hortaliça com um bocadinho de chouriço e toucinho cozidos dentro da sopa, isto nos dias bons.
Os remediados iam à mercearia comprar “quartas” de açúcar, arroz, marmelada, quartos de litro de azeite, tudo fiado assente num rol, que ia sendo pago em parte, semanalmente. As casas não tinham frigorifico, nem dispensa, não por nenhuma moda arquitectónica, mas porque era inútil ter locais para guardar o inexistente.
Os remediados assim que acabavam a escolaridade, a quarta classe, sabendo a tabuada, os reis e os principais afluentes dos rios, começavam a trabalhar, numa oficina, num alfaiate, a troco de tostões para abater no rol.
Qualquer conversa era cautelosa, porque não se sabia quem a poderia escutar. Sobrava a prática desportiva, muitas vezes improvisada, meia dúzia de divertimentos controlados e as colectividades onde se aprendiam outras coisas.
Por muita nostalgia que se tenha pelas mercearias antigas e por outras coisas não eram, de facto, bons tempos.
Os filhos e netos dos remediados começaram a viver, a ter direito a sonhar, a um futuro que fosse esta roda perpétua de canseiras e insuficiências.
Agora dizem-nos que temos de voltar a ser remediados, mas parece-me que existe outro remédio diferente que não implique voltar atrás.

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