DEUS NOS LIVRE!
Artigo de Constança Cunha e Sá, no Jornal “I”, de 16.06-2012
“Aparentemente o Conselho de Ministros transformou-se numa
amena reunião de convívio que serve para pôr a conversa em dia sobre meia dúzia
de trivialidades: presumo que se fale sobre os estados de alma de Cristiano
Ronaldo, as possibilidades da selecção, as condições meteorológicas do
fim-de-semana ou, num rasgo de cosmopolitismo, do último restaurante da moda em
Londres ou, melhor ainda, em Nova Iorque.
Como é óbvio, assuntos comezinhos, como o encerramento da
Alfredo da Costa, a maior maternidade do país, não fazem parte deste edificante
cardápio.
Confrontado com o anúncio do Ministério da Saúde, o
primeiro-ministro diz que leu qualquer coisa sobre o assunto num jornal mas que
não tinha conhecimento da medida.
O Dr. Paulo Macedo (Ministro da Saúde) bem pode andar por aí
à solta a fechar o que lhe der na real gana, que o Dr. Passos Coelho dispensa
qualquer informação sobre as fulgurantes iniciativas do seu ministro. Quando
muito, dá uma vista de olhos aos jornais e fica com uma ideia, mais ou menos
vaga, sobre o que se está a passar na saúde. Aliás se duvidas houvesse, o
ministro da Saúde esclareceu logo, com o zelo que se impunha, que não tinha
dado “cavaco” a ninguém, muito menos ao primeiro-ministro, sobre o fim da
Maternidade Alfredo da Costa.
Escusado será dizer que, uma vez conhecido este peculiar
modelo de funcionamento do governo não vale a pena incomodar o
primeiro-ministro com os lucros da EDP ou da GALP. Naturalmente, ele não faz a
mais leve ideia dos valores em causa – que por infeliz acaso mereceram alguns
reparos da chamada troika -, mas, em contrapartida, informa-nos que o Dr.
Álvaro Santos Pereira é capaz de ter alguns números sobre o negócio que devem
estar escondidos algures num dos cacifos do Ministério da Economia.
Este verdadeiro quadro de miséria ganha proporções épicas
quando se salta da nossa deprimente realidade doméstica para as agruras da zona
euro. Neste particular, o governo esmera-se na senda de Vitor Gaspar, o
primeiro-ministro decidiu, ontem, informar os portugueses de que o pedido de
ajuda de Espanha não foi formalizado. Conclusão: o governo ignora obviamente, tudo o que se relaciona com um acontecimento
que não existe. Pouco importa que o nosso
estimado ministro das Finanças tenha participado numa reunião do Eurogrupo que
determinou a ajuda à banca espanhola.
Presumindo-se que os ministros das Finanças da zona
euro não tenham estado, à boa maneira portuguesa, a debater amenidades, sobra a
desagradável hipótese de o ministro Vitor Gaspar ter gasto o melhor do seu
tempo a fazer rabiscos enquanto os outros ministros das Finanças falavam. Azar
dos azares: por
uma vez o Dr, Passos Coelho falou com um dos seus ministros. E assim ficou a saber que, ao contrário do
que toda a Europa diz, não houve qualquer ajuda à banca espanhola. E depois
ainda há quem fale de coordenação. Deus nos livre! “
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