sábado, 24 de março de 2012

ATÉ QUANDO?

A HISTÓRIA INTERMINÁVEL A QUE É PRECISO COLOCAR UM FIM
Artigo de ANA PORFÍRIO, no Jornal do Barreiro

Confesso que não sou amante de novelas. Lembro-me da loucura colectiva que levava as vizinhas a juntarem-se próximo de um rádio a escutar “Simplesmente Maria”, obrigando-nos, a nós crianças, a ficar no mais absoluto silêncio.
Depois, só depois do 25de Abril de 1974, apareceram as telenovelas, que até paravam o Parlamento. Depois banalizaram-se. Algures na minha adolescência deixei de seguir minimamente o enredo que basicamente é sempre o mesmo, ricos contra pobres, alguém muito mau, alguém muito bom, um amor impossível.
Geralmente a intriga que se arrasta por centenas de capítulos resolve-se nos últimos minutos do derradeiro episódio, os maus são castigados, o amor torna-se possível, os cegos voltam a ver, os mudos a falar, etc. Como as histórias tendem a ser parecidas e os actores os mesmos, quando acidentalmente reparo nelas tenho a estranha sensação que há décadas que a novela é a mesma, apesar da decoração ou do guarda-roupa ser diferente.
O mesmo se passa com outras coisas que acho fazerem parte do mesmo romance de cordel. Por exemplo, o senhor que foi o primeiro-ministro e depois Presidente da República chamou pela primeira vez o FMI, que iniciou as privatizações, os contratos a prazo e outros mimos, tudo com a ideia de que só faltava um bocadinho para acender a luz ao fundo do túnel, é agora o senhor que diz que isto não pode ser. Por outro lado, o senhor que, enquanto primeiro-ministro, achou que o melhor a fazer era abater barcos de pesca, arrancar vinhas e sobreiros, agora usa chapéus de cortiça e diz que nos temos de virar para o mar.
Entretanto, o que era líder da oposição, indignado com os baixos salários dos portugueses e o excesso dos impostos, é o primeiro-ministro que num espaço de meses aumenta os impostos e retira salários, subsídios, bolsas de estudo,
abonos de família e outras coisas mais. O ministro que negoceia com estrangeiros já foi ministro de outras coisas, onde fez um negócio ainda pouco claro em que comprou uns submarinos a uns estrageiros.
Na verdade, o enredo desta novela é sempre basicamente o mesmo, enquanto oposição indignam-se muitos com os impostos e sacrifícios do povo, quando tomam posse dizem, com um ar compungido, que afinal isto está muito pior do que pensavam, e, como tal, são necessárias medidas drásticas. Depois aplicam as medidas drásticas a um número imenso de figurantes que se esquecem que foram outras exactamente as mesmas medidas drásticas, efectuadas pelos mesmos personagens que nos trouxeram até aqui e que, desta forma, o túnel fica mais escuro e comprido.
No meio disto existem sempre uns incómodos que ainda se conseguem infiltrar na história e que nunca desistem de apontar o dedo a isto tudo e de dizer, muitas vezes, muito alto, de todas as maneiras que conseguem que assim não vamos lá.
Eu, por mim, sou desse e tenho a ideia de que é melhor acabar com esta história. E tu? “

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