Editorial de ANA SÁ LOPES, in Jornal “I”
Os governos começam a morrer pela boca e, no fim, implodem pela crise económica, pelo ódio cidadão e pelo pântano onde todos se afogam. Cavaco Silva abandonou a liderança do PSD porque era odiado e, evidentemente, o regime que terminou em 1995 era um lodaçal a transbordar de escândalos como o agora tão presente BPN; António Guterres desistiu de ser primeiro-ministro porque também era odiado e vivia num
- esse reconheceu a situação no dia em que bateu com a porta; Durão Barroso fugiu para Bruxelas porque tinha acabado de levar um golpe nas eleições do Parlamento Europeu, tinha um governo imobilizado e o partido capturado pelo seu ex-inimigo e depois outra vez amigo Pedro Santana Lopes.
Pedro Santana Lopes (o elo mais fraco de todos estes) auto-destruíu-se à velocidade da luz, não sobreviveu aos pontapés da família perpetrados desde o seu nascimento como primeiro-ministro e desencadeou uma notável reacção nacional antigoverno que uniu os portugueses à esquerda e à direita, contra o poder em funções. Finalmente, Sócrates. O anterior primeiro-ministro é despachado por causa do aprofundar da crise internacional, pela descolagem da realidade, pelas suspeitas que processos como o Face Oculta desencadearam, pelo aparelhismo, captura do Estado pelo partido e pelos amigos, etc, etc. No dia da decadência, todos estes factores juntos pesaram no destino final.
O que têm todos estes cidadãos em comum? Começaram todos a morrer pela boca. Em quase todos, a linguagem moralista marcou o arranque dos seus mandatos. Todos vinham moralizar o Estado, nunca haveria “jobs for the boys” (Guterres); estariam ao lado do povo humilde de onde tinham vindo (Cavaco); nunca “deixariam construir um aeroporto enquanto houvesse uma criança com fome” (Durão Barroso) e por aí fora.
Sócrates, como todos se lembram, ia lutar contra “os interesses instalados”.
Acabaram praticamente todos no mesmo sitio, aquele onde Pedro Passos Coelho já está a entrar. O discurso moralista contra as nomeações no Estado já
perdeu validade; o dos cortes salariais também, depois das excepções incompreensíveis para a maioria dos cidadãos, afectados e não afectados.
Agora chegaram as exclusões ao regime dos gestores públicos que o governo tinha decidido – e bem – não deveriam ter um ordenado superior ao do primeiro-ministro.
As excepções (1) já são meia-dúzia e incluem até gestores da famosa Parque Expo que, segundo Passos, não interessava a ninguém e devia fechar.
São contradições a mais para tão pouco tempo de governo. “
1).- Mais excepções: Cinco empresas não vão aplicar o novo estatuto de gestor público. São elas a TAP, ANA, CTT, Parque Expo e a EMA. O argumento do governo é que estão em processo de privatização ou de extinção.
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