sexta-feira, 9 de março de 2012

GRACIAS COMPAÑERO

GRACIAS, MARIANO RAJOY!
Crónica de ANA SÁ LOPES, no Jornal “I”, em 08.02.2012
“Mariano Rajoy, o primeiro-ministro espanhol, declarou suavemente na semana passada em Bruxelas que “ia tomar uma decisão soberana” – uma frase herética nos luminosos tempos que correm. E anunciou soberanamente (diz que sem falar com ninguém porque não precisava) que o défice espanhol não iria baixar para 4,4% - como queria a Comissão Europeia -, mas apenas para 5,8% do PIB em 2012. Com uma taxa de desemprego que se aproxima dos 25% e metade dos cidadãos jovens sem trabalho, uma decisão do governo espanhol de encolher o défice de 8,5% para quase metade significaria ainda mais desemprego, muito menos consumo (que já não é grande coisa) e recessão ainda mais agravada.
Mariano Rajoy, ainda que obrigado àquela ideia peregrina da constitucionalização do limite do défice (imposta pelo socialista Zapatero), decidiu poupar os cidadãos a um esforço draconiano e mandar o ajustamento merkeliano à fava. Quem não dava nada por Mariano Rajoy, cuja principal qualidade política parecia ser uma paciência de Job na espera da queda de Zapatero, ficou espantado.
A declaração de Mariano Rajoy é importante, a vários níveis. Primeiro, é um arroubo de soberania numa Europa germanizada onde. Como já vários escreveram, o Keynesianismo está à beira de ser ilegalizado. Afinal introduzir o limite do défice na Constituição ilegaliza qualquer política expansionista – o mundo não teria recuperado da Grande Depressão, nem a Europa da Segunda Grande Guerra, se essa lei estúpida estivesse em vigor.
O anúncio de Rajoy tem a vantagem inominável de questionar o novo pacto de estabilidade e de pôr a Comissão a discutir rapidamente que são agora viáveis os tais “procedimentos” por défice excessivo.
É obvio que Mariano Rajoy está a abrir um caminho difícil. O que a Europa deveria estar a discutir já seria a flexibilização das metas do défice numa conjuntura económica terrivelmente recessiva – mas, como no seu conjunto está economicamente insana, aprova pactos para satisfazer o eleitorado
alemão. A “revolta” de Rajoy é uma boa notícia para todos os países frágeis do euro, com Portugal à cabeça: como notava aqui há dias o “Wall Street Journal”, um ajustamento mais flexível em Espanha significa que os nossos vizinhos podem importar mais. Como a única esperança de melhorar a economia nacional são agora só as exportações, e se a Espanha é um dos nossos principais mercados, percebe-se quanto a revolta espanhola interessa à economia portuguesa.
Em vez de continuar a dizer que não vai atrás de Espanha e cumprirá o défice. Passos devia estar a mandar a Rajoy um cartãozinho de agradecimento.”

Sem comentários:

Enviar um comentário