PORQUE NÃO ME RENDO, NEM DESISTO!
“ Pronto, escutei atentamente o Primeiro-Ministro e as medidas extraordinárias sobre as medidas extraordinárias. De facto, subsídio de Natal já sei que não há. Por acaso, o subsídio de férias do meu companheiro já não houve cá em casa. Trabalho desde os 19 anos, já me convenci que não me vou reformar, porque, entretanto, vão colocar o limite de idade da reforma aos 125 anos e, se morrer antes, os meus filhos e os meus netos ficam obrigados a indemnizar o Estado, isto se tiver trabalho que, neste momento, é mais provável não ter. Tenho dois filhos na faculdade, dois putos porreiros que até agora foram bons alunos, educados a não ligarem a marcas e a orientarem-se. Vejo-me doida para pagar propinas, passes e sebentas. É claro que podem deixar de estudar, é um luxo, o pior é que o mais certo era não arranjarem emprego. Portanto, também não era a melhor opção. Posso deixar de ter carro, claro, um luxo, de ter Internet, Telefone, Televisão por Cabo, posso passar a comer nos dias impares, e nos pares a beber água, mas pouca, até porque a ideia é ser privatizada e dar muito lucro.
Posso deixar de tomar os medicamentos, os tais que o médico diz que eu não posso deixar de tomar, sempre era uma poupança. Posso deixar de ler, comprar livros é um luxo, concertos já comecei a cortar, jornais, petiscos eventuais com os amigos, cinemas, são tudo coisas que começam a ser agendadas para 30 de Fevereiro. Posso deixar de comprar roupa e fazer aquilo que ouvi contar que se fazia, quando a roupa estava gasta “virava-se”. Posso começar a fazer rissóis e empadas para fora no fim de um dia de trabalho, mas desconfio que, como isto está, não existirá muita clientela. Posso retirar metade das lâmpadas de casa e fazer eu velas para me alumiar, até tenho algures receitas amigas para fazer sabão e pó para limpar os dentes. Posso conformar-me encolher os ombros e fazer isso tudo. Até posso.
Mas não quero. Entre outros legados familiares ficou-me o da dignidade. Mais ainda ficou um País melhor para mim do que foi para os anteriores. Por isso, não me conformo em hipotecar o futuro do meu País, dos meus filhos, para tapar buracos dos bichos da madeira, para pagar submarinos, para pagar carros blindados que não chegaram a tempo da cimeira da Nato ou da visita do Papa, mas devem de estar cá a tempo de repelir manifestações de trabalhadores descontentes ou derrapagens que deram direito a bolsos cheios de alguém que se ri com o meu esforço e que vai continuar a dar bitaites sobre o esforço que temos de fazer, porque o esforço é nosso, não deles, nunca deles.
Por isso, não me resta outro caminho senão o mesmo, o da dignidade, de lutar por esse futuro melhor, porque não me rendo, nem desisto. “
ANA PORFIRIO, na Coluna “Visto daqui!”, no Jornal do Barreiro
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