E A ESPERANÇA?
O orçamento infernal que nos foi apresentado traz ameaças e medos. A ameaça da bancarrota, da própria implosão do Estado, da impossibilidade de pagar os ordenados e por aí fora, numa espiral de violência que atira a maioria das famílias para o território das preocupações obsessivas e da miséria. E medo. Medo de perder o emprego, de não poder pagar a casa, de não poder alimentar os filhos.
Este Orçamento é dizer ao doente que as dolorosas sessões de quimioterapia são feitas porque não há outro caminho, mas que não se conhece uma única porta para que, depois haja um sinal de luz. É um bom debate sobre culpados que, na triste tradição portuguesa, acabarão por não ser responsabilizados por nada.
Porém, o pior drama deste Orçamento é ser um fatalismo. Não há alternativa. Não há escolha, a não ser a loucura infanto-juvenil da nossa Esquerda piedosa e tonta que propõe desfazer já amanhã a hipótese dos nossos filhos não serem mendigos e párias para o resto da vida.
Não há alternativa, dizem os entendidos em finanças. É porque não há, acredito eu, que nada sei de finanças. Contudo, há uma coisa que sei. Nenhum cidadão, nenhuma família, nenhuma comunidade consegue viver sem esperança. A substância ética do trabalho, da responsabilidade, do compromisso comum inscreve a ideia de esperança.
Trabalhemos juntos, porque assim será melhor. Soframos juntos, porque juntos nos salvaremos. Combatamos juntos, porque assim é possível a vitória e a paz. O direito à esperança não tem páginas do “Deve” e do “Haver”. Sobrevive-lhe e supera os dramas contabilísticos. E até os reconhece, desde que a esperança persista intocável.
É impossível ter fé na promessa de que não haverá mais dureza. A história recente feita de PEC e restrições financeiras encharcadas de promessas de que nada mais se pede é um cadastro que rebentou com a fé. E agora não há escolha.
Ou o Ministro Álvaro, o Primeiro-Ministro ou o Presidente da República nos entregam um caminho de esperança, por mais ínfimo e estreito que seja, ou pior do que um País arruinado será um País mal-amado até à dor de alma mais aguda, sem um pequeno sol de redenção.
Ninguém é solidário com o Inferno. Podemos atravessá-lo, mas com a convicção de que, mesmo não havendo Céu, há terra firme para caminhar com Esperança.
Francisco Moita Flores
In Correio da Manhã, de 16.11.2011
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